Mademoiselle Chanel, sem dúvida a maior personalidade de moda do século, costumava dizer com ironia: “Podem copiar meus modelos, é um prazer.”
Coco jamais dizia a sua idade. Certa vez, um jovem repórter americano foi entrevistá-la; “Um certo garoto metido num paletó-jaquetão”. Disse ela.
_Senhorita, um amigo e eu estamos revolucionando a arte de dar entrevistas; fazemos apenas três perguntas ao entrevistado.
_Nada mal.
_A senhorita aceitaria responder?
_Ainda não sei. Comece, estou com pressa.
_Qual é a sua idade?
_Você não tem nada a ver com isso.
_Não é uma resposta, senhorita.
_Tem razão. Direi então que minha idade depende dos dias e das pessoas com quem estou.
_Ótimo!
_Espere um pouco. Quando me aborreço, eu me sinto muito velha, e como estou me aborrecendo profundamente com você, logo terei
mil anos, se você não der o fora imediatamente.
Coco tinha verdadeiro horror que lhe chamassem pelo diminutivo; Gaby, seu pai, a chamava de queridinha, em francês “petit Coco”. Daí o seu apelido “Coco”, embora seu nome de batismo (que costumava ser realizado no hospital, imediatamente após o nascimento) foi dado em homenagem à irmã de caridade que cuidava de sua mãe: Gabrielle-Benheur.
Gabrielle perdeu a mãe aos seis anos de idade, e foi criada por duas tias, pelas quais sentia muita gratidão e profunda mágoa. Dizia Coco:
“Tinham prometido me educar, mas não a me amar. Arrependiam-se por ter concordado, num momento de emoção, em tomar conta de mim. Apesar de tudo, devo-lhes muito.”
Dede pequena, Coco tinha um senso estético apurado, e sabia desde então o que era belo e o que não era. Um episódio engraçado se passa na sua primeira comunhão, onde suas tias queriam que ela usasse uma touca com seu vestido branco. Ela queria uma coroa com rosas de papel, que achava maravilhosa. Gabrielle relutou, e disse que se a forçassem a usar aquela touca de camponesa, ela não iria fazer a primeira comunhão.
_Para mim, tanto faz fazer ou não a primeira comunhão!
Acabou usando a coroa de rosas de papel.
Certa vez Coco, (com aproximadamente dezessete anos), e sua irmã Adrienne foram passar férias com uma tia que possuía uma casinha em Varennes-Sur-Allier. Era dia de festa na cidade e havia carrossel e algodão doce na pracinha. Um dos barraqueiros pediu às duas que tomassem conta de sua barraca enquanto levava sua mulher doente ao hospital. O estoque de confetes foi rapidamente esgotado. As duas, calculando o lucro, viram que dava para ir de trem a Paris. Adrienne, que administrava o dinheiro, comprou bilhetes de segunda classe, não querendo viajar de terceira. Na época, havia vagões até de quarta classe. “Vamos de primeira classe”, decidiu Coco. Foram pegas pelo fiscal, que não se deixou comover, e tiveram que pagar uma multa.
Coco nunca esquecera o episódio: “Eu bem que disse a Adrienne para comprar bilhetes de primeira classe, teria evitado a multa.”
Bem, Coco era muito astuta, e desde sempre muito sabida. Chegou a dar emprego a quatro mil operárias e era adorada pelo homem mais rico da Inglaterra. Passou a se chamar Mademoiselle Coco Chanel. Dizia: “Podemos nos habituar à feiúra, nunca à negligência”.
Isto è Chanel.
Raquel Fernandes